29 de mai de 2011

23 - Produzindo Jaguara - Novas páginas

Toikobé!
E a produção do livro II da Jaguara está à todo vapor. Agora vou mostrar duas páginas de uma sequência de luta da Jaguara antes dela se tornar a líder de sua tribo ou quando estava bem perto de ser... Enigma!!!
Será uma sequência bem brutal que estou trabalhando à algum tempo. Pela sua brutalidade, estou tentando amenizar com os movimentos desenhados como se fosse um balé mortal, com movimentos de luta livre precisos e sequenciais.
Nestas duas páginas que vou mostrar, a Jaguara está em posição de desvantagem a mercê de um poderoso guerreiro Txucarramãe. Ao final de toda a sequência, que terá umas 12 ou 15 páginas, mostrarei um desfecho surpreendente, que mostra um pouco da honra e cultura de guerra das tribos indígenas de séculos atrás.
Ressalto que toda pesquisa que faço é para ter embasamento cultural, mas sem a intenção de ser didático e totalmente fiel. Faço como uma "pitada" de história no mundo fantástico da Jaguara.
Bom, vejam os esboços iniciais da página 02 a seguir:


Neste primeiro esboço da página 02, o quadro 1 não estava bom, pois a visão do leitor estava por trás dos ombros da Jaguara. Creio que me equivoquei após analisar que a melhor visão para o leitor seria se aproximar dessa cena com a visão dos índios que assistiam ao embate. A sensação de descoberta seria maior. No quadro 2, a posição e o enquadro não tinha ficado bom. Ficou estranho na verdade, por isso modifiquei também. No quadro 3, a ideia inicial era mostrar a Jaguara caída, machucada e exausta. Mas vendo ela desenhada completamente estirada no chão, creio que acabei mudando sua condição de desvantagem para completamente vencida. Me deu a impressão de que ela seria incapaz de reagir ao guerreiro Txucarramãe.


Nesta nova versão da página 02, o quadro 1 ficou com uma visão realmente melhor, como se o leitor estivesse entre os índios querendo saber o que está acontecendo. No quadro 2, eu respondo imediatamente à questão do leitor, levando-o direto para perto da Jaguara para ver sua real condição física. No quadro 3, ela está semicaída, demonstrando abatimento físico, mas deixando a entender que pode se levantar. Isso não era passado no esboço anterior, já que uma pessoa caída e estirada no chão tem muito menos chances de reagir e se levantar de repente.


Na página 03, o olhar da Jaguara precede o que ela está prestes a fazer e há um preparo para uma longa sequência de luta...

Estes esboços tenho o hábito de fazer em papel sulfite 90 gr. A4, desta forma consigo um controle maior na evolução da história, corrigindo possíveis erros antes de passar para a folha A3.
As mudanças da página 02 me deixaram satisfeito, mas ainda é possível que eu mude e acrescente pequenos detalhes quando for passar à limpo.
De qualquer forma, está sendo imensamente prazeroso e estimulante ver sua história tomar forma. Muito revigorante mesmo. Por falar em revigorar, vou colocar aqui duas músicas que eu escutei para fazer as páginas 02 e 03 a seguir:


Como a página 02 falava de sofrimento e do imprevisto, pensei em uma música mais calma que me desse a ideia de algo inesperado, gracioso e forte a ser descoberto. A música que usei foi de uma musicista (meio-soprano) irlandesa que gosto muito chamada Enya. Esta música creio que muitos já devem ter escutado e se chama Orinoco Flow do álbum The Very Best of Enya 2009. Vale muito à pena...


A página 03 mostra uma preparação para algo maior, brutal com muita determinação e garra. Uma superação mesmo, como o "crescendo" de uma ópera. A música que me dá essas sensações, até comentei no final do post passado. Ela se chama Everything's Gone Green do New Order. Estimulante e progressiva!
Colocarei mais pra frente a finalização dessas duas páginas.
É isso.

Valeu!

18 de mai de 2011

22 - Produzindo Jaguara - Influências e referências musicais

Toikobé!
Como o título diz, hoje vou falar de influências musicais no meu trabalho. Algumas é claro...
Mas vocês podem se perguntar: "– O que tem música a ver com produção de quadrinhos?" – Respondo: "- Tudo!"
Geralmente, quando mergulhamos em nosso mundo situado em nossa prancheta (ou mesa da cozinha), a maioria dos artistas coloca algum som pra rolar. Em muitos casos, este som influencia diretamente em nosso trabalho de várias formas.
No meu caso e da Jaguara, dependendo do que eu queria desenhar naquele momento eu escolhia uma determinada música ou gênero para ouvir.
Meu gosto é variado e totalmente interligado com meu estado de espírito. Geralmente a música eletrônica me atrai mais, bem como rock e música clássica. No geral, o rock me deixa mais seguro e firme no desenho. A música clássica me deixa mais sensível e concentrado. A eletrônica me deixa "ligado", com mais adrenalina e muito empolgado, tanto é que desenho mais rápido quando escuto este gênero.
Esta semana, eu estava mexendo em alguns discos de vinil que tenho aqui e um me despertou uma boa lembrança.
Liguei o computador, me conectei à internet e encontrei alguns clipes dessa banda, que particularmente gosto muito. A banda se chama New Order, formada por Bernard Sumner, Peter Hook, Gilliam Gilbert e Stephen Morris. Suas músicas foram pioneiras em misturar o rock com ritmos dançantes eletrônicos, principalmente a disco music sintetizada e eletropop. Summner, Hook e Morris eram membros remanescentes do Joy Division, que formaram o New Order após o suicídio do então vocalista, Ian Curtis. A tecladista/guitarrista Gilliam Gilbert entrou para a banda em 1980 e nos anos 80 e 90, foram uma das melhores bandas de música eletrônica que se tem notícia. Sua influência caracterizou o que se conhece hoje como Dance Music e lançaram álbuns históricos, com várias músicas que são referências no gênero até hoje.
Vou falar de duas músicas em especial: "The Perfect Kiss" e  "Round and Round".
A primeira é realmente um primor em termos de variedade de instrumentos tocados e sons programados e introduzidos de sintetizadores. Há até um som de coachar de sapo em um trecho da música.
O vocal de Sumner é firme e direto e a letra, um tanto diferente e trágica, mas a melodia que eles construíram e que toma sozinha a música a partir da metade (sua versão original tem 9'30 min) nos deixa em êxtase.
O diferencial do clipe de "The Perfect Kiss" que vale lembrar, foi feito em 1985, é que ele mostra simplesmente os integrantes da banda tocando todos os instrumentos e fazendo as inserções de sintetizadores do começo ao fim da música! É um tipo de construção artística, que mistura vários elementos inusitados e aparentemente desconexos, para formarem uma linearidade sonora, resultando em um som único e fluente.
Tive um professor de música na faculdade (grande Prof. Celso Cintra!), que nos ensinou a ouvir músicas com olhos fechados e tentar identificar os instrumentos tocados e analisar sua fluência musical. Grande dica que serve perfeitamente para esta música!
Essa analogia particularmente, aplico em meu trabalho. Buscar e pesquisar elementos variados para transmitir uma mensagem única, que faça sentido ao leitor e que identifique minha obra. Não é tarefa fácil, mas ouvir um som desses ajuda muito:


Essa música é uma influência direta pela minha busca ao complexo para constituir um trabalho linear e simples.
A próxima música se chama "Round and Round" e seu clipe, feito em 1989 fez parte do albúm Technique.
É um estilo musical dançante, muito próximo do Tecno. O clipe dessa música é muito interessante e inovador. Ele mostra oito jovens modelos, de etnias diferentes com os ombros nús em close com atitudes espontâneas diante da câmera. Ele foca muito as sutilezas e expressões do rosto feminino, e no caso das modelos do clipe, suas emoções diferentes diante de uma câmera. A impressão que se tem é que parece que elas estão olhando diretamente para nós, dialogando e expondo suas personalidades, além de suas belezas particulares.
Resumindo, é uma clara homenagem à figura bela, misteriosa e inocente que as mulheres podem invocar (algo que falta hoje na imagem que se constroem das mulheres, principalmente nas mídias de massa).
Foi filmado em preto e branco, com inserções subliminares de imagens coloridas baseadas claramente na Pop Art. Dizem que essa ideia influenciou no clipe da música "Black or White" de Michael Jackson.
Houve duas versões do clipe para "Round and Round". A primeira é que aparecesse uma modelo durante o clipe todo, exatamente a primeira modelo que aparece em ambas as versões, chamada Patty de Silva.
Na segunda versão, que se tornou a oficial, é que Bernard Sumner sugeriu que fossem várias modelos e não apenas uma. Há uma lenda na internet que diz que a atual esposa de Sumner seria uma dessas moças, mas como ela não aparece em público e após mais de vinte anos, ninguém ainda conseguiu confirmar esse boato.
Além da música, que gosto bastante, este clipe é uma referência visual fenomenal para ilustradores. 
Explico: nele encontramos diversas expressões de mulheres e modelos de rostos femininos suaves e diferentes. É pausar e desenhar!
Com este racionínio, ao rever o clipe em um velho VHS por volta de 1995, me deparei com a 6ª modelo que aparece, chamada Veronica Webb, que me serviu para alguns estudos do rosto da Jaguara.
Literalmente, encontrei uma excelente referência visual na música!
Segue um vídeo da música e suas duas versões:


Versão "Only Patty".


Versão oficial do clipe.

Segue então algumas imagens da modelo que serviu de referência para algumas poses do rosto da Jaguara:



Imagem congelada do clipe "Round and Round" da modelo Veronica Webb.


Desenho da Jaguara baseado na imagem acima. Em esboço azul e grafite 6B.

Este post é também uma dica de trabalho mas, espero ter mostrado um pouco da importância da música com o artista de quadrinhos. Claro que o que eu mostro aqui é sempre relacionado à produção do próximo livro da Jaguara e não falo por todos, mas essa relação existe entre cada profissional com seu respectivo gosto musical. 
Agora são 2h30 da manhã e minha esposa dorme a um bom tempo. Mas antes de dormir, creio que vou escutar "Bizarre Love Triangle" e "Everything is Gone Green"...
É isso!

Valeu!

10 de mai de 2011

21 - Produzindo Jaguara - Prestigiando um amigo de trabalho

Toikobé!
Na sexta-feira passada teve um lançamento de um livro muito legal e quase que obrigatório para quem trabalha ou curte quadrinhos, que foi o lançamento do ArtBook do ilustrador Renato Guedes.
O evento aconteceu na Quanta e para quem não conhece, o Renato atualmente é contratado da Marvel e está produzindo a revista do Wolverine, junto com meu amigo José Wilson Magalhães, que é o arte-finalista dessa série.
Acho importante falar sobre lançamentos de autores nacionais por uma questão de respeito, admiração e companheirismo, já que estamos no mesmo "barco", por assim dizer.
Além do Wilson, que é amigo de longa data, o Renato é um cara muito legal, talentoso e simples, apesar de sua projeção e estatus internacional. Um cara muito acessível e prestativo, que fez questão de tirar fotos e dar a opção de escolha de qualquer personagem aos leitores que compareceram neste lançamento, que ele desenhou pacientemente a cada um na segunda capa de seu livro.
Seu trabalho é realmente muito bom desde quando desenhava Smallville, passando por Omac, Superman, Supergirl, Arqueiro Verde e Canário Negro até o atual Wolverine. Vale realçar que desde a série Omac, o José Wilson está trabalhando em parceria com ele, fazendo a arte-final.
Como a maioria deve saber, eu dou aula de Quadrinhos e Desenho Básico na EBA! - Estúdios Artísticos Brasil desde 2001. Em 2005, fizemos um evento em novembro, onde tivemos várias palestras sobre Quadrinhos e Artes e em uma delas, o Renato Guedes e o colorista Rodrigo Reis, que na época trabalhavam para a revista Superman da DC Comics, falaram sobre a Produção de Histórias em Quadrinhos para o Mercado Americano e tiraram dúvidas e deram sugestões ao público presente ao evento.
Veja a foto:

Rodrigo Reis, Renato Guedes e Eloyr Pacheco, em palestra na EBA! em 2005.

A seguir, segue fotos do evento de lançamento do livro do Renato. Este post teve a intenção de prestigiar dois grades profissionais do mercado de quadrinhos, que representam muito bem os artistas brasileiros lá fora com talento e profissionalismo, mas além disso, teve uma questão pessoal, pois além de admirador e fã do trabalho de ambos, o Renato me concedeu gentilmente um belo privilégio, que vocês podem conferir a seguir:

 Foto de parte do conteúdo e da capa do livro de Renato Guedes.

Eu posando como fã junto ao Renato.

O autor desenhando uma certa personagem solicitada.

Aí está um grande privilégio sem dúvidas!

Este post foi dedicado a este lançamento legal, de um cara muito legal e que me concedeu um privilégio mais legal ainda.
É isso!

Valeu!