1 de out de 2014

58 - Produzindo Jaguara - A obra fica

Toikobé!!!!!!
Faz um bom tempo, mas novamente estamos aqui.
Sempre algo nos traz de volta para projetos de Vida que aparentemente são congelados por qualquer motivo de força maior.
Este meu blog, que é um pouco de meu trabalho e aspirações me permite ser expontâneo... e estou sendo agora.
Quero falar um pouco de trabalho, de Quadrinhos e ilustrações, mas hoje quero dividir algo especial que veio de uma notícia muito triste.
Dia 11 de setembro faleceu um mestre e um amigo muito querido: Antonio Cedraz.
Estava dirigindo quando recebi a notícia e fiquei em choque, e preso no trânsito da marginal Tietê, tive tempo de lembrar muitas passagens que tive em conversas divertidas e inspiradoras.
Imediatamente, pensei em escrever algo, mas eu achei melhor esperar para escrever algo mais apropriado e menos dramático possível, já que a própria notícia em si é um grande drama da Vida.
Comecei a me lembrar antes de tudo, da minha admiração pelo trabalho do Cedraz com a Turma do Xaxado.
Li as primeiras tiras por volta de 2002 e me apaixonei pelo trabalho incrível, onde o protagonista é um garoto do interior da Bahia e suas tiras retratam de forma bem humorada, como o espírito do Cedraz era, todas as passagens, dia-a-dia e amarguras desses personagens no interior do Nordeste.
Um trabalho regional que tomou o Brasil pela simplicidade do traço, pela originalidade e coragem de retratar os costumes e problemas enfrentados por uma grande parte de nossa população no Nordeste do país.

Umas das minhas tiras preferidas dentre centenas.

Obviamente, a inspiração de seu trabalho me tocou mais profundamente por eu ser um criador e ter meus personagens que são frutos de nossa cultura.
Cedraz sempre foi (e é) uma inspiração...
Mas certa vez, para minha felicidade, eu acabei conhecendo meu ídolo e descobri que ele realmente era um cara super simples, bem humorado, modesto e atencioso. Muito brincalhão e perspicaz, logo percebeu minha admiração pelo seu trabalho e meu deu o privilégio de sua amizade.
Isso era por volta de 2003 e geralmente eu o via a cada entrega do troféu HQ Mix aqui em São Paulo.
As vezes eu participava de alguns encontros fora do evento e sua presença sempre era marcada pela sua simplicidade e bom humor.
Lembro de quando o Cedraz soube da Jaguara, me felicitou muito e desejou toda a sorte do mundo para ela e pra mim, e para minha surpresa, elogiava meu trabalho. Isso era algo gigantesco para um ilustrador que estava prestes a apresentar sua personagem para o mercado e para as pessoas.

Seus personagens sempre retravam condições de Vida real e dificuldades enfrentadas por muitas classes sociais e étnicas do povo Nordestino.

Em 2005 eu lancei a Jaguara e um mês após, o Cedraz me encomendou um exemplar que fazia questão que eu enviasse autografado.
Nem preciso dizer como me senti feliz em autografar para um ídolo meu. De verdade, é uma sensação de realização incrível que nunca se esquece...
Em 2006, houve uma oportunidade de participar de uma feira de licenciamento de marcas organizada pela Abral, através do Sr. Bonfá, presidente da associação na época e pela editora Forma.
Como era um pouco caro o espaço, pensei logo em propor aos organizadores um espaço coletivo, para que pudessemos participar e dividir as despesas e assim foi.
Eu tive o privilégio de convidar o Cedraz a participar e ele topou de imediato.
A feira foi um sucesso e uma experiência muito positiva para todos nós que participamos deste estande coletivo.


Foto tirada no estande de nossos amigos do "Guerreiros da Tempestade", de frente ao nosso.
Em pé: Luis Sales (autor de livros infantis), o arte-finalista Kleber, Sr. Walace (proprietário da agência W5), o editor Fábio Azevedo, Reinaldo (ilustrador), Anísio Serra Azul (desenhista), J. Wilson (arte-finalista) e Diego Mulhoz (ilustrador);
agachados e sentados: Cedraz, eu e Alexandre Montandon (quadrinista).

Fizemos muitas amizades e contatos de trabalho muito importantes, mas o que ficou realmente foi estarmos juntos lá. Muitas conversas, risadas e projetos nasceram a partir dali. E o principal: amizades feitas e reforçadas.
A presença do Cedraz, que ficou um dia inteiro conosco, foi incrível e percebi o quanto esse cara era querido e respeitado pelos outros colegas de profissão. Isso só aumentava minha admiração agora, pela sua pessoa.
Na feira, uma dessas ideias que levei lá foi a do jornal infantil Eureca! Superkids, onde convidei alguns ilustradores e autores amigos meus, para que cada um pudesse contribuir com seus personagens no produção do jornal, onde ele seria distribuido gratuitamente em colégios aqui em São Paulo.
Ao convidar o Cedraz, ele novamente topou de prontidão. O jornal era bancado por nós em um rateio enquanto eu buscava patrocínio de empresas com ajuda do Luis Sales.


Primeira impressão do Jornal Eureca! Superkids que circulou gratuitamente em mais de 30 colégios a cada 4 meses entre 2007 e 2009.

Quando o jornal saiu finalmente, foi uma alegria para todos nós é claro. Recebi uma ligação do Cedraz me parabenizando pelo projeto e que ele estava muito satisfeito em participar e que eu poderia contar com sua participação e colaboração enquanto o jornal durasse. E assim foi...
No mesmo ano em que lancei o jornal, o Cedraz ganhou um troféu HQ Mix pelo livro "Contos e Mistérios" merecidamente.
Eu estava lá junto do meu amigo Cidão e outros amigos registrando este momento:



Cedraz recebendo seu troféu HQ Mix em 2007 pelas mãos de Serginho Groisman e discursando para a plateia.


Foi emocionante e logo após o evento, nos reunimos com outros amigos de profissão em uma lanchonete ali por perto, onde o Cedraz fez questão de pedir licença para "pagar a conta" após dizer que estava muito feliz pelo prêmio e que fazia questão de pagar daquela vez. Bom, ninguém discutiu com o mestre.
Trabalhamos juntos até 2009 no ESK! (como chamávamos nosso jornal), quando infelizmente precisei suspender sua produção por falta de patrocínio financeiro.
Isso é algo muito dolorido de se fazer, principalmente porque eu fazia questão de visitar as escolas e distribuir e pude algumas vezes ver o rosto de alegria das crianças ao folhearem nosso jornal e ouvir os elogios das professoras e diretoras desses colégios sobre nosso trabalho.
Quando fui comunicar isso aos integrantes do jornal, foi triste demais e quando chegou a vez do Cedraz, ele me surpreendeu ao dizer que ainda iríamos colher os frutos desse trabalho e que não desanimasse de forma alguma, pois novos projetos viriam e que tinhamos de ser perseverantes, pois tinhamos um compromisso com as crianças que conheceram nossos trabalhos.
Bom, nunca esqueci isso. 
Ainda em 2009, eu lancei o primeiro livro do meu selo editorial junto do autor Djair Galvão, o "Saci de Duas Pernas", que conta as aventuras de Cássio, um sacizinho que nasceu "defeituoso" porque tinha duas pernas.
Novamente o Cedraz, ao saber do livro, me ligou, encomendando um exemplar autografado e rasgou de elogios a ideia e inciativa do livro. Hoje, este livro está em sua 3ª edição.
Mas de tudo que escrevi, de tudo que pude aprender e compartilhar com o mestre Cedraz, ficou uma conversa que tivemos em 2006, que me veio à tona agora como uma grande inspiração e um soco no estômago.
Eu estava sentado de frente ao Cedraz, no estande, enquanto ele olhava meu livro e alguns produtos com meus personagens, ele começou a falar sobre o mercado e o início de sua carreira.
Me disse que muitas vezes, ele colocava dinheiro do bolso para pagar seus funcionários e colaboradores de seu estúdio, não só para honrar sua palavra mas porque o seu estúdio era sua realização pessoal como autor. Ali era um mundo dele onde compartilhava com pessoas especiais (seus funcionários) e que faria todo o possível para manter.
Ele me disse que se um dia enriquecesse, todos ali iriam enriquecer juntos. 
Muitos desses pensamentos, dividíamos e isso era um privilégio enorme pra mim.
Dividiamos o respeito que precisamos ter com nossos leitores, que investem seu dinheiro para comprar nosso trabalho e dedicam um tempo de suas vidas para ler o que escrevemos. Isso não tem preço de jeito nenhum.

As diferenças sociais eram geralmente retratadas por seus personagens. Uma crítica de constatação sempre muito bem representada e ilustrada.

Conversamos muito sobre ética e sobre honrar o nome, o trabalho e nossos colaboradores.
Sim, falamos muito de "honra"...
Lembro de ter mostrado a ele um editorial que o Sergio Bonelli escreveu sobre meu livro e vi uma alegria muito grande em seus olhos e me disse que aquela realização era só minha mas que muitas pessoas poderiam se inspirar com aquilo. E a responsabilidade do autor é isso: saber que o que ele escreve e/ou desenha influencia as pessoas. Por isso devemos ter muito cuidado com o que escrevemos e/ou ilustramos e respeitar os leitores ao extremo, não só por conta de que eles pagam, mas principalmente por nos permitirem entrar em suas Vidas.

Cedraz demonstrava com maestria as dificuldades da falta de chuva no Nordeste de forma bem humorada mas não menos preocupante e reflexiva.

Um trecho dessa conversa de quase 2 horas que me marcou muito foi quando eu perguntei da semelhança com o trabalho do Maurício de Souza (formato do desenho e caracterização de crianças) e se isso o intimidava de alguma forma, em expor seus personagens no começo. Se tinha medo que que as pessoas poderiam apontar semelhanças, se ele tinha medo de se frustrar ou não ter verba suficiente para publicar seus livros... enfim, perguntas pertinentes, que após sua resposta se tornaram tolas.
"Meu amigo, eu precisava mostrar meu trabalho porque eu sabia que era um bom trabalho, porque pesquisei muito e pus muita "alma" nos personagens. Sabia que não ia ser fácil e que eu não tinha nem de longe o suficiente para bancar meus livros e quadrinhos. Eu não nasci gigante, mas quando precisamos enfrentar gigantes basta lembrar de subir em uma pedra e olhá-los nos olhos e dizer que também temos nosso valor..."
Essa frase me marcou muito. Não foi exatamente com essas palavras, mas o sentido de sua mensagem era essecialmente isso.
Não que o Maurício seja um concorrente para nós, na verdade pra mim, pro Cedraz e pra grande maioria dos criadores e ilustradores, o trabalho do Maurício sempre foi e será uma inspiração para todos nós.
Mas o Cedraz quis dizer com isso com algo que complementei: os "gigantes" muitas vezes não são o mercado ou os concorrentes, são nossos medos que nos impedem de nos mostrar, mostrar nosso trabalho e talento. Precisamos ser muito críticos com nosso trabalho, mas ao colocar "alma" e paixão em nossas criações, penso que temos uma grande chance de passar isso para os leitores.
E o que ficou pra mim de tudo isso? De ter compartilhado alguns importantes momentos com o mestre Cedraz e ter aprendido tanto?
Ao meu ver, e agora me lembro de uma conversa rápida ao telefone que tive com ele em 2011, após saber que enfrentava uma doença terrível, que houvesse o que houvesse, que ele estava tranquilo, pois seu trabalho o tinha realizado nesse mundo.
E novamente, ele tinha razão. O que ficou, além das boas lembranças e ensinamentos, foi sua obra que irá perpetuar seu trabalho, Amor e ideais para muitas gerações ainda.


Penso então que mereciamente, o Cedraz conseguiu o que para todos nós que temos nossas criações sonhamos: imortalizar nosso trabalho e fazer a diferença nesse mundo!
Acredito que cada ser humano vem a este mundo com um propósito.
Nós criadores, não somos diferentes e por isso nos foi dada a capacidade de poder trilhar o mundo real e o mundo da imaginação.
Posso então afirmar que você cumpriu com seu propósito mestre Cedraz.
E que, mesmo que estejamos passando por turbilhões e dificuldades em nossas Vidas pessoais, precisamos se necessário, subir em uma pedra e encarar gigantes para seguir em frente, pois temos um propósito a cumprir e fazer jus.


Um encontro entre o Xaxado e a Jaguara Mirim. Fofos e felizes...


Que honra enorme foi tê-lo conhecido, meu amigo!

Obrigado!!!!!!